Marta pode retomar projeto enterrado por Erundina
Emurb vai apresentar à prefeita estudos para criar um bulevar na Avenida Juscelino Kubitschek, planejado por Jânio
06 de Agosto de 2002

LUCIANA GARBIN

A movimentada Avenida Juscelino Kubitschek pode virar até 2004 um bulevar com árvores e trânsito apenas local. Pelo menos é o que prevê um dos projetos que serão apresentados à prefeita Marta Suplicy (PT) e secretários municipais no âmbito da Operação Urbana Faria Lima.
Se o projeto for aprovado, Marta estará indo na direção contrária à de sua ex-companheira de partido e ex-prefeita Luiza Erundina. A via expressa, iniciada por Jânio Quadros (1985-1988), foi suspensa por Erundina (1989-1992). Considerando a obra cara, ela mandou recobrir 500 metros que já haviam sido escavados e suspendeu o projeto de ligar a Avenida 23 de Maio ao Morumbi.
Agora, 13 anos depois, com a região já modificada pelo prolongamento da Avenida Faria Lima e a construção dos Túneis Ayrton Senna, Tribunal de Justiça, Jânio Quadros e Sebastião Camargo, a Prefeitura pode construir a via expressa.
O dinheiro viria, segundo o presidente da Emurb, Maurício Faria, dos recursos extra-orçamentários previstos na Operação Urbana Faria Lima com taxas de outorga onerosa – o proprietário paga para construir mais ou ter o uso do lote alterado. Estima-se que sejam arrecadados nisso de R$ 50 milhões a R$ 70 milhões, além dos outros R$ 50 milhões que devem ser aplicados na revitalização do Largo da Batata (projeto já aprovado).
Faria ressalta que o bulevar está em fase de estudo preliminar e a construção do túnel – que ele chama de trincheira coberta – dependerá de vários fatores, entre eles a economia. “Nosso dever é apresentar projetos e estamos examinando quatro eixos na região.” Estão sendo analisados também o prolongamento da Avenida Hélio Pellegrino e o alargamento da Rua Funchal e melhorias no eixo da Avenida Eusébio Matoso.
Reavaliação – O petista Faria, que era vereador na gestão Erundina, diz que já foi contra as mudanças na região, porque privilegiavam o sistema viário e exigiam grandes investimentos. “Erundina entendeu que era melhor investir em transporte público, mas depois vieram Maluf e Pitta e foram feitas as obras, que nós não enaltecemos, mas elas estão aí e a discussão agora é como melhorar o que já existe”, diz. “Com o aumento da frota, as transversais com semáforos e os problemas de circulação, há de fato um grande gargalo na Juscelino. Essa trincheira coberta completaria o circuito que está estrangulado e traria um ganho urbanístico na superfície.”
Para a urbanista Raquel Rolnik, diretora de Planejamento na gestão Erundina, a proposta dos túneis “não tem o menor sentido nem prioridade” para a estrutura de circulação da cidade. “Há áreas mais importantes que precisam de complementos na estrutura viária do que, mais uma vez, a região sudoeste.”
Raquel critica o modelo da Operação Faria Lima. Pela lei, aprovada na administração Paulo Maluf (1993-1996), os recursos só podem ser gastos no perímetro do projeto. “É o grande exemplo de como uma operação urbana pode ser perversa. Ficam refazendo canteiro, enquanto há regiões desestruturadas.”
O Estado de São Paulo - SP - 06/08/2002